Por que Freud abandonou a hipnose?

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Já experimentou falar com algum estudante de psicologia (e infelizmente até mesmo alguns profissionais formados) sobre hipnose? Provavelmente você vai ouvir deles que “isso é bobagem”, “hipnose não existe” ou algo do tipo. E se você perguntar os motivos para eles acharem isso, a resposta certamente será: “Freud abandonou a hipnose e disse que hipnose não existe!”… bla bla bla

Este fato (que aconteceu há mais de 100 anos atrás) ficou marcado na história da hipnose como talvez a maior chance que ela perdeu de entrar para a história como terapia, como parte fundamental da psicanálise. Mas este post não é para lamentar o passado… pelo contrário. O objetivo é mostrar o que realmente aconteceu quando Freud publicamente abandonou a hipnose, que era a base dos seus tratamentos no que hoje conhecemos como a Psicanálise.

Freud abandonou a hipnose?

Comecemos pelo começo. É verdade que Freud abandonou a hipnose? Sim!

Existem registros de quando o pai da psicanálise disse ter deixado de lado a hipnose e preferido outros caminhos para seus métodos analíticos. Freud realmente disse  que a hipnose não seria mais a base dos seus estudos e ele inclusive deu alguns motivos para isso:

  1. “Eu não sou um bom hipnotista” – Freud alegava não ter sucesso considerável em levar pessoas ao transe. Isso pode ter acontecido por alguns motivos. O  primeiro é que os métodos da época eram mais limitados de fato. Sabia-se pouco do fenômeno do transe e de como colocar pessoas em transe. Certamente que se ele dominasse as técnicas que existem hoje, seus resultados com hipnose teriam sido totalmente diferentes. Outra possibilidade para seus resultados não satisfatórios seria sua voz. Freud era fumante compulsivo de charutos e isso inclusive foi a causa da sua morte. Sua voz era pigarreada, o cheiro de charuto devia ser constante e quando ele teve câncer na boca, provavelmente o cheiro era insuportável. Então, imagina você sendo guiado ao transe com um baita cheiro de charuto e por uma voz desagradável de ser ouvida?! Fato é que Freud sabia que tinha limitações na técnica e disse isso publicamente como uma das “justificativas” para descartar a hipnose. Não era culpa da técnica, mas de quem a usava.
  2. “A hipnose é uma técnica analgésica” – Freud disse que a hipnose não tratava nada, só mascarava sintomas ou dava um alivio analgésico ao paciente. Provavelmente ele estava certo. Na sua época, pouco se sabia sobre ressignificação, as técnicas que hoje sabemos serem as responsáveis pela mudança de perspectiva do cliente em relação ao seu problema e às elaborações que, de fato, trazem resultados em uma análise ou terapia (seja ela qual for). Com certeza, sem ressignificação a hipnose não traria resultados duradouros, assim como nenhuma terapia sem ressignificação o faz. Mas isso não é culpa da técnica e sim de como ela é aplicada. Em mais de 100 anos muita coisa mudou e ao meu ver, negar a evolução da hipnoterapia é no mínio ingenuidade.
  3. “O cliente fica dependente da hipnose” – Por conta do motivo anterior, o cliente precisaria voltar constantemente para a terapia se quisesse se sentir bem. Ele também tinha razão em pensar isso, pois se você não muda a forma do cliente enxergar seus problemas, ele vai voltar sempre. Só que mais uma vez, isso não é culpa da técnica e sim de como ela é aplicada. Mesmo na psicanálise ou em qualquer outra linha teórica da psicologia, se o terapeuta não consegue ressignificar ou fazer o cliente elaborar sobre seu problema, a terapia vai se estender pra todo o sempre e nenhum resultado considerável será alcançado.
  4. “A hipnose colocaria a mente do sujeito sob total controle do Hipnotista”– Aqui temos talvez o único erro completo de Freud. Em todas as suas  razões para abandonar a hipnose o pai da psicanálise até tem razão para o contexto da sua época, mas neste aqui ele errou grande! A hipnose não tem nada a vez com controle mental. Sabemos que as sugestões que são dadas em transe podem ou não serem aceitas pelo sujeito e tudo isso depende: (1) da sua vontade; (2) do contexto; (3) dos mapas mentais e crenças do sujeito. Sabemos que por mais profundo que seja o transe, o senso crítico, ou fator crítico nunca está 100% ultrapassado e desta forma o cliente sempre tem poder de escolha. É justamente por isso que na terapia com hipnose, assim como em qualquer outro processo terapêutico, o cliente precisa querer muar para que algo aconteça. Não existe mágica!
  5. “A hipnose atrapalha o processo de transferência e contratransferência”– Estes dois termos são fundamentais no processo de análise. Trata-se de um fenômeno natural quando temos um analista fazendo um bom trabalho com seu cliente. Na verdade, a transferência seria necessária em qualquer processo bem sucedido de análise. O que Freud dizia é que a hipnose cria um Rapport (uma conexão) tão profunda entre cliente e Hipnotista que a transferência e contratransferência – que deveriam ser processos naturais – seriam intensificadas e isso atrapalharia o processo de análise. Mais uma vez o cara tava certo… em partes. Sim a hipnose cria rapport e conexão extremamente profundos. Mas isso não é necessariamente ruim. Se bem conduzido, os elementos que tornam a hipnose perigosa para as transferências podem ser minimizados ao ponto de não mais atrapalhar, mas pelo contrário, tornar a hipnose um catalisador no processo de análise.

Freud estava certo ou errado?

Não existe certo e errado nisso. Ele teve seus motivos para abrir mão da hipnose e na nossa opinião o maior deles não foi publicamente listado. Freud precisava emplacar uma teoria que não era bem vista no mundo acadêmico e que usava uma técnica com grande carga mística. Para ter mais credibilidade, Freud tinha que se desvincular da hipnose e do que ela representava no mundo científico.

Alguns fatores nos leva a pensar que esta foi uma jogada também política. Primeiro porque as razões que Freud lista, não são por si só definitivas para uma decisão destas, mesmo porque, mostramos que todas elas são corretas em partes, ou seja, poderiam ser revertidas facilmente. Segundo porque em vários registros das sessões que Freud fazia, ele descreve técnicas utilizadas por ele que são técnicas de hipnose… pura e simplesmente técnicas de transe e sugestão direta. Terceiro porque a mesma pessoa que publicamente abandonou a hipnose disse o seguinte:  “Tudo que se tem dito e escrito a respeito dos grandes perigos da hipnose pertence ao reino da fantasia. . . ”

Quer entender melhor tudo isso? Veja a série de 4 vídeos que preparamos sobre os motivos que levaram Freud a abandonar a hipnose!

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